Maria da Penha
- Larissa Mancia
- 29 de mar.
- 2 min de leitura
A Mulher que Transformou seu Nome em Escudo para as Próximas
Maria da Penha Maia Fernandes nasceu em 1º de fevereiro de 1945, em Fortaleza, Ceará. Farmacêutica bioquímica, formou-se pela Universidade Federal do Ceará em 1966 e concluiu seu mestrado em Parasitologia em Análises Clínicas pela Universidade de São Paulo em 1977. Era uma mulher de formação sólida, construída num tempo em que isso era exceção para as brasileiras.
Maria de Penha por Galeria da Lalo e Maria da Penha
Foi durante o mestrado, em São Paulo, que conheceu o homem com quem se casaria. O relacionamento começou bem, como costumam começar. O casamento veio em 1976, as filhas vieram logo depois, e a família se mudou para Fortaleza. Foi a partir daí que tudo mudou. As agressões foram crescendo em frequência e intensidade até que, em 1983, Maria da Penha foi vítima de uma dupla tentativa de feminicídio. Primeiro, levou um tiro nas costas enquanto dormia, o que lhe causou paraplegia irreversível. Quatro meses depois, quando voltou para casa após duas cirurgias e longa recuperação, foi mantida em cárcere privado durante 15 dias e sofreu uma nova tentativa de assassinato, desta vez, de eletrocussão durante o banho.
O que aconteceu depois disso é onde a história de Maria da Penha começa de verdade. Ela poderia ter ficado em silêncio. Não ficou. Em 1994, escreveu o livro Sobrevivi... posso contar, documentando sua história e os andamentos do processo contra o agressor. Não esperou que outros contassem. Ela mesma pegou a caneta e fez isso num momento em que ainda lutava na Justiça brasileira, que levou oito anos para realizar o primeiro julgamento e nunca chegou a prender efetivamente o réu.

Quando ficou claro que o caminho nacional estava bloqueado, ela mudou de escala. Em 1998, junto com organizações internacionais de direitos humanos, levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. A pressão internacional resultou na responsabilização do Estado brasileiro e, anos depois, na lei que leva seu nome, sancionada em 2006.
Mas ela não parou na lei. Em 2009, fundou o Instituto Maria da Penha, uma ONG sem fins lucrativos, dedicada a educar, conscientizar e pressionar para que a legislação seja de fato aplicada. Com mais de 80 anos, Maria da Penha continua em movimento. Dá palestras, participa de seminários, concede entrevistas e pressiona o sistema. Seu trabalho foi reconhecido com o International Women of Courage Award em 2010, uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2017, e premiações em direitos humanos no Brasil, na França e na Alemanha, entre outras.
O nome dela virou lei. Mas antes disso ela foi uma cientista, uma mãe de três filhas, uma autora, e alguém que, diante de décadas de omissão, decidiu não aceitar o silêncio como resposta.
Pesquisa inspirada no livro Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes - 100 Brasileiras Extraordinárias [Ed. Outro Planeta I 2023 ]







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